Por: Carlos Thadeu, assessor externo da área de economia da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo)

Com o avanço do PIB (Produto Interno Bruto) e a queda na desocupação no país o cenário econômico se inverteu, os analistas não enxergam mais recessão. Grande parte deles apostava que o Brasil passaria por praticamente nenhum crescimento pelo menos em 2022. Um erro substancial, considerando que o PIB cresceu 2,5% no 1º semestre, e as estimativas para a atividade este ano vêm aumentando semana pós semana. A ICF (Intenção de Consumo das Famílias), apurada mensalmente pela CNC, cresceu 2,1% em outubro, o 9° aumento consecutivo, com destaque para a maior intenção de consumir pelas famílias de renda média e baixa.

A turbinada nas transferências de renda tem surtido o efeito esperado. Esse indicador retrata a confiança dos consumidores, e tem potencial de antecipar a progressão da atividade econômica no último trimestre do ano, mas o endividamento elevado pode embaçar a capacidade de consumo futuro das famílias.

A percepção sobre o nível de consumo e a renda atuais estão melhorando, principalmente com a queda recente da inflação e a evolução positiva no mercado de trabalho formal. Embora os 2 indicadores no ICF ainda estejam na zona de insatisfação, aos poucos as famílias estão resgatando o poder de compra e se mostrando mais dispostas a consumir. O maior movimento e volume de receitas no setor de serviços também revelam a retomada do consumo pelas famílias, represado pela pandemia.

A maior incógnita, porém, será o desempenho da atividade econômica em 2023. As medidas do governo federal para transferir recursos às famílias impulsionaram o PIB até agora, por meio do consumo, mas deixa uma herança fiscal para o próximo ano. O monitor do PIB da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrou retração de 0,8% em agosto relativamente a julho, mas na comparação com agosto de 2021, a atividade econômica expandiu-se 3,7%. E o consumo das famílias recuou 0,5%, pela ótica da demanda, depois de ter sustentado o bom desempenho da economia no 1° semestre.

Possivelmente o comprometimento com dívidas deve moderar a demanda dos consumidores. Os juros altos já produzem efeitos na contenção inflacionária e nas expectativas para os preços à frente, como também era esperado que, em certa medida, esfriasse a economia.

Os incentivos governamentais só foram possíveis devido ao aumento da arrecadação federal. A política fiscal passou a ser um dos pontos mais frágeis da economia brasileira. A grande jogada do atual governo foi a manutenção do teto de gastos e a contenção das despesas durante a pandemia.

O teto de gastos é importante para assegurar o compromisso do governo em honrar os gastos, mas ele não só pode como deve demonstrar flexibilidade e se adaptar às necessidades do país, com os choques recentes e as consequências econômicas.

É importante frisar a necessidade de compromisso e responsabilidade do próximo presidente eleito em assegurar o equilíbrio fiscal, para que não haja riscos de um processo inflacionário acelerado como no passado, o que exigiria a necessidade de juros ainda mais elevados.

A estabilidade fiscal é necessária para manter a credibilidade do país no âmbito externo, atraindo investimentos e possibilitando a abertura comercial. O presidente eleito terá como missão assegurar esse ambiente favorável com âncoras fiscais bem claras e definidas, permitindo que a recuperação econômica continue evoluindo.

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