Por: Augusto Santos Silva

Folha de S.Paulo

São evidentes os laços históricos e o denso relacionamento entre Brasil e Portugal, assim como a convergência de posições em várias organizações multilaterais. A agenda comum inclui temas de concertação político-diplomática, comércio e investimento, proteção consular e cooperação com países terceiros.

Acresce a presença muito significativa de brasileiros em Portugal e de portugueses no Brasil, o peso das famílias binacionais e a contínua circulação de pessoas como turistas, viajantes, estudantes ou profissionais. Também nas escolas e universidades, nos centros de pesquisa e inovação, no setor criativo ou na museologia, cruzamentos e influências recíprocas desenham uma pauta muito relevante para o presente e o futuro do diálogo luso-brasileiro.

Os próximos dias e meses constituem ocasião ótima para sublinhar esses fatos. A reabertura do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo amplia o acesso de todos ao maior ativo conjunto de Portugal, Brasil e demais nações lusófonas: essa língua que só é o que é hoje graças ao falar cotidiano de milhões de pessoas —tanto em Lisboa como no Rio, tanto em Luanda como em Maputo— e ao trabalho criativo de tantos escritores e artistas, de Clarice Lispector a António Lobo Antunes, ou de José Saramago a Chico Buarque de Holanda.

A recuperação do museu, depois do incêndio de 2015, contou com o apoio de empresas portuguesas e do Instituto Camões; e estamos gratos pelo convite dirigido ao nosso Presidente da República para o ato solene de reabertura.

Nos próximos meses, várias iniciativas permitirão aprofundar os encontros culturais entre portugueses e brasileiros. Isso é vital para o interconhecimento baseado nas realidades do presente e atento ao pulsar moderno das duas sociedades, que é a melhor maneira de fugir de simplificações, lugares comuns e preconceitos.

Portugal foi sondado para país convidado de honra da Bienal do Livro de São Paulo de 2022 e para se associar às comemorações do segundo centenário da independência do Brasil; e logo aceitou sem hesitação. Em ambos os casos, a memória histórica e a cultura contemporânea servirão de porta de entrada para que ainda mais brasileiros conheçam o Portugal de hoje e para que se multipliquem as iniciativas conjuntas de todo tipo, em ciência e inovação, na economia e tecnologia, e nas causas mobilizadoras da cidadania, do clima à igualdade.

A cooperação entre os povos português e brasileiro pode ser assemelhada a uma árvore. Com tronco robusto, que é a língua comum. Com os seus ramos, que são as áreas de partilha e ação. Com flores vistosas e frutos saborosos, que são os resultados que vamos produzindo e colhendo. Com raízes antigas e profundas, que é a história cruzada de gerações de mulheres e homens de todas as condições. E qual é a seiva que percorre e alimenta tal árvore, senão a cultura?

Eis também o que significa a reabertura do Museu da Língua Portuguesa.