Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes

Economista-chefe da CNC

A retomada atual do consumo de bens não essenciais e de serviços é guiada pelo crédito, com reflexo no endividamento recorde das famílias no país. Com o crescimento da economia neste ano e o avanço da vacinação, passados mais de 18 meses de pandemia, o brasileiro está resiliente e mais confiante. A maior flexibilização do isolamento tem levado à gradual retomada do consumo. Mas é a inflação corrente elevada e disseminada que desafia os orçamentos das famílias, especialmente as de menor renda, que têm usado o crédito como forma de recompor os rendimentos.

O percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer alcançou 74% em setembro, alta de 1,1 ponto percentual em relação a agosto, e de 6,8 pontos ante setembro de 2020, o maior incremento anual da série histórica.  De acordo com a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência dos Consumidores), realizada mensalmente pela CNC desde 2010, o endividamento das famílias com até 10 salários mínimos de renda mensal é ainda mais expressivo, chegando a 75,3%.

De acordo com o BC (Banco Central), o endividamento dos consumidores com o sistema financeiro também chegou ao recorde em junho, com 60% de famílias com compromissos financeiros a vencer com bancos e financeiras. Desconsiderando o crédito imobiliário, a parcela de endividados é igualmente a maior da história, alcança 37% dos lares brasileiros.

Esses números são corroborados pela evolução recente das operações de crédito com pessoas físicas. As estatísticas do BC mostram que o saldo das transações, ou o estoque de crédito aos consumidores está crescendo de maneira contínua e robusta, assim como os desembolsos de crédito novo.

Somente com recursos livres, o estoque de crédito às famílias chegou a R$ 1,4 bilhão em setembro, aumento de 11% no ano, com o avanço nas concessões. A expansão acontece na maioria das modalidades, com destaque a duas que são associadas ao curto prazo: o cheque especial e o cartão de crédito, principalmente parcelado e rotativo.

Com cerca de 83% das famílias brasileiras incluídas no grupo de menor renda da Peic, curiosamente o recorde no endividamento para esse grupo ocorre concomitantemente à alta dos juros no país e à redução da inadimplência. Surpreendentemente a parcela de famílias com até 10 salários mínimos com contas ou dívidas em atraso caiu em agosto e setembro, atingindo 28% do total de lares, 2 pontos abaixo do mesmo período do ano passado.

Já os juros médios nas operações com recursos livres atingiram 40% em agosto, 3 pontos percentuais acima da média de dezembro de 2020, por exemplo. A trajetória de alta dos juros desde o início deste ano é marcada pelo maior aperto monetário, em que a alta mais pronunciada da Selic acelera o aumento dos juros nas operações de crédito. No entanto, a inadimplência bem comportada até o momento traz um alento, e os spreads ainda não mostram crescimento significativo.

A inflação ao consumidor medida pelo INPC fechou o 2º mês seguido na casa dos 2 dígitos, com alta de 10,78% no ano encerrado em setembro. Com comportamento semelhante, o IPCA alcançou 10,25% em 12 meses, segundo o IBGE, embora dentro das expectativas do mercado.

O que explica, então, o endividamento elevado, a inadimplência sob controle, com a inflação deteriorando principalmente a renda das famílias de renda média e baixa?

O crédito tem sido a saída para a recomposição dos rendimentos desses consumidores, que têm usado mais o cartão de crédito na compra de itens também essenciais, ou de 1ª necessidade, como alimentos e medicamentos. Com o orçamento sofrendo pela inflação alta nos alimentos, na energia elétrica e nos transportes, o cartão de crédito tem oferecido um respiro à renda.

A proporção de endividados no cartão dentre os mais pobres chegou a 85,3% do total de famílias nessa faixa, 5,1 pontos acima do percentual de dezembro do ano passado, quando a inflação começou a se pronunciar de forma mais expressiva.

Por outro lado, com todos os desafios, esses consumidores mostram o esforço em pagar as despesas fixas e as dívidas com o sistema financeiro, e isso é explicado pela renegociação das dívidas. A repactuação explica fundamentalmente a melhora na inadimplência em relação ao ano passado, bem como a evolução relativamente positiva da parcela média da renda comprometida com dívida.

O tempo de comprometimento com dívidas tem aumentado entre os endividados, em que a proporção de famílias endividadas por mais de 1 ano é crescente desde o final do 1º trimestre, e chegou ao maior percentual em setembro, 34,4% do total de endividados.

Já o comprometimento da renda encerrou setembro em 30,8% dos rendimentos, estável nos últimos 3 meses, embora 0,5 ponto acima do mesmo período do ano passado, e abaixo dos 32,3% observados do fim de 2015 ao início de 2016, por exemplo. Naquele momento, a inflação estava também na casa dos 2 dígitos, assim como os juros altos com a Selic em 14,25% ao ano.

Nesse momento, estamos sofrendo com a alta dos preços principalmente por desequilíbrios de oferta de bens industriais (cadeias de suprimentos e logística) e a falta de chuvas dificultando a geração de energia hidrelétrica. No entanto, um 1º bom sinal é que os índices de difusão do IPCA cederam na margem, com comportamento mais favorável dos preços dos alimentos e dos serviços, por exemplo.

Com isso, a inflação seguirá como ponto de atenção nos meses à frente. E a dinâmica do endividamento pode ser alterada no próximo ano, pelos juros mais altos e pelo crescimento menor da economia esperado para o ano eleitoral de 2022. Ainda assim as operações de crédito aos consumidores, que neste ano aumentarão cerca de 18%, pelas contas do BC, devem seguir evoluindo em 2022, embora em menor ritmo. Com isso, o endividamento também deve se manter em proporções elevadas.