miki_breier_artigo3Miki Breier é deputado estadual pelo PBS/RS.

Ainda tem sentido relembrarmos o 13 de maio e outras datas relativas à questão do povo negro e do racismo no Brasil? Em qual patamar, dias como o da Abolição da Escravatura, da África ou Nacional de Denúncia contra o Racismo, comemorados em maio, indicam mudança na realidade do mundo do trabalho para a comunidade negra, ou em relação à violência contra a mulher e a juventude negras, à intolerância religiosa, ao não cumprimento da Lei 10.639/03 que trata da inserção, nos currículos escolares, do ensino da história da África e afro-brasileira, à legitimação das terras quilombolas? Relembrar para quê? Relembrar para manter ou para mudar?

Cento e vinte e cinco anos após a abolição da escravatura e ainda estamos presos a mesquinhos e interesseiros preconceitos. Segundo o IBGE, pretos e pardos têm rendimento escolar inferior, menos anos de estudo, piores condições de vida e estão mais sujeitos à violência do que a população de pele clara. Conforme os indicadores sociais de 2012, enquanto um caucasiano recebe 3,5 salários mínimos mensais, uma simples mudança no tom da pele derruba esse rendimento para 2,2 salários no Estado – o que representa uma diferença de 59%. E ainda: no Rio Grande do Sul, no indicador Violência, há 39,4 vezes mais risco do negro ser assassinado. Na Educação: brancos estudam oito anos e nove meses em média e negros, sete anos e meio.

O racismo institucionalizou-se e, via lutas populares, mas, também pela institucionalidade (Cotas Raciais, implementação de Leis, ação afirmativa por exemplo) deve ser combatido. Mas, enquanto houver Haitianos, chegados ao nosso país e sendo tratados como epidemia; grupos de extermínio promovendo limpeza étnica em muitas favelas; a especulação imobiliária for um dos motivos para o “apaziguamento”, a custa de mortes de inocentes; não se propuserem políticas de saúde para a população negra; líderes quilombolas e indígenas continuarem a ser assassinados por defender a legitimação de terras herdadas; as religiões afro não forem respeitadas enquanto códigos de conhecimento e sabedoria; nossa língua não se acostumar a desligar Negro de Escravo; não percebermos que há jeitos étnicos diferentes de sermos seres humanos; não nos flagrarmos que, há muito tempo, Negro não é sinônimo de minoria em nosso país…a Liberdade não terá chegado aos lares de negros e não negros de nossa amada e idolatrada terra.

Aliando os dados anteriores à pergunta inicial vemos que todos, negros e não negros, ainda carecemos da tão ambicionada liberdade. A Lei Áurea não surtiu o efeito devido. Os negros, nos Quilombos, bem antes de 1888, sabiam que só com uma mudança nas estruturas e, consequentemente, na forma de ver o mundo é que se poderia vislumbrar verdadeira liberdade para todos – povos da África, indígenas e homens/mulheres colonizadores.

O modo de vida de muitos negros e negras, em nossos dias, lembra a escravidão. Todos acabamos por sermos escravizados à realidade do mundo do consumo e do mercado. Almejamos que o negro, invisibilizado pelo preconceito, torne-se cada vez mais VISÍVEL, mais negro; assim como o índio torne-se cada vez mais índio, o branco, o asiático e todas as multicores etnias tornem-se, igualmente, cada vez mais visíveis e apareçam para o mundo e para a mentes.

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