Adriana Mattos, Felipe Marques e Tainara Machado

São Paulo – O eleitor vai chegar às urnas no dia 5 de outubro com inflação acima do teto da meta no acumulado em 12 meses, baixo crescimento da economia e redução significativa da confiança. O emprego, porém, ainda cresce, principalmente no setor de serviços, o que continua a garantir aumento da renda real da população ocupada, ainda que de forma menos acelerada do que em anos anteriores.

No geral, porém, os indicadores econômicos que afetam diretamente o dia a dia dos eleitores mostram que houve piora, mais ou menos sutil, em relação a 2010. A inflação conhecida no momento das eleições naquele ano era de 4,7% no acumulado em 12 meses e deve ser de 6,6% em igual período deste ano. A geração de empregos com carteira assinada estava próxima de 2 milhões nos oito primeiros meses de 2010. Neste ano, foram criados 752 mil novos postos de trabalho até agosto. A confiança, que está em 103 pontos, estava próxima de 121 pontos às vésperas do pleito em 2010.

As taxas de crescimento da economia também eram bastante diferentes. Enquanto no primeiro e no segundo trimestres deste ano o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 0,2% e 0,6%, respectivamente, o Brasil havia se expandido 2% no primeiro trimestre e 1,3% no segundo, ainda na esteira da recuperação da crise.

Depois do pico em maio de 2012, o Índice de Confiança do Consumidor passou a cair paulatinamente, em linha com desempenho da economia, que passou a desacelerar com mais contundência naquele período, diz Aloísio Campelo, coordenador de sondagens conjunturais do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Para o economista, a piora da avaliação da situação econômica das famílias é consequência, em parte, do aumento de preços observado nos últimos anos. A inflação média no governo Dilma Rousseff foi de 6,1% até agosto, enquanto no mandato anterior a alta do IPCA foi de 4,81%, na média. Se considerados apenas os preços de serviços, a disparidade foi maior: na média, 2,4 pontos mais altos entre os dois períodos.

Para Campelo, há ainda por parte da população a percepção de que parte da inflação está represada. “Assim, as expectativas inflacionárias não cedem”, diz. Mais recentemente, afirma Campelo, houve também piora da avaliação sobre o mercado de trabalho, o que pode estar ligado à menor geração de empregos formais nos últimos meses e ao noticiário econômico mais negativo, que aumenta o temor em relação ao desemprego.

Outro fator que também afeta a percepção é a inflação de alimentos. Entre 2007 e 2010, os alimentos e bebidas subiram 7,9%, em média, taxa que passou para 9,02% entre 2011 e 2014, considerando os dados até agosto.

Com orçamento mais apertado pelos gastos cotidianos, as famílias estão evitando se endividar. Um dado que mostra como as pessoas podem estar percebendo uma piora nas condições econômicas está no adiamento da retirada do nome sujo do mercado. Entre agosto e outubro, historicamente cresce o número de pessoas que tentam renegociar dívidas para voltar a fazer compras no fim do ano.

Quatro em cada dez consumidores inadimplentes admitem que não vão pagar suas dívidas nos próximos três meses, segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) com 1.245 pessoas em todas as capitais, em agosto. Parte não tem condições de arcar com o valor (28%), ou há falta de interesse em regularizar o débito (9%).

Para o setor atacadista e de distribuição de produtos, o clima de insegurança cresceu e o período eleitoral acabou acentuando esse ambiente. Apesar desse cenário, o ambiente econômico não deve afetar tanto a decisão de voto da população, ressalta a entidade. “A massa salarial não está crescendo tanto, mas não houve encolhimento na renda, e a queda na velocidade de geração de empregos não bateu tão pesado sobre a população, porque afeta especialmente um conjunto de setores industriais”, disse José Rodrigues Costa Neto, primeiro vice-presidente da Abad, associação que representa o setor atacadista.

Para Campelo, além de condições objetivas, como emprego, renda e inflação, a insatisfação do consumidor – e do eleitor, por consequência – também parece estar ligada a um sentimento mais difuso, de que a qualidade de vida não está melhorando como se esperava. “Havia ganhos muito visíveis nas camadas mais baixas, que talvez tenham apresentado certa estagnação”, diz.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilio (Pnad), por exemplo, mostra que mais de 97% dos domicílios têm geladeira, fogão e televisão. Já a oferta de serviços públicos de qualidade, uma das demandas que apareceram nas manifestações de julho de 2013, alcança menos habitantes. A rede coletora de esgoto atinge 64,3% das casas, por exemplo, e a rede de abastecimento de água, 85,3% dos domicílios. “Da porta para fora de casa, os avanços foram menos visíveis”, diz Campelo.

Publicado no Valor Econômico em 24/09/14

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