Por Gabriela Knoblauch

Autora de livros na Editora Foco Juridico / Foco Universitario

Nunca a máxima “política não se discute” fez tão pouco sentido no Brasil. Com as redes sociais e aplicativos de troca de mensagens, é possível observar a frequência com que o tema passou a ser debatido. Nomes de políticos aparecem regularmente nos trending topics do Twitter. De grupos de família em aplicativos de mensagens aos “textões” inspirados no Facebook, o tema tem esquentado as conversas e gerado divergências.

Tanto que a tensão política foi apontada como o principal motivo de atrito percebido no Brasil em pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos com pessoas de 28 países. O estudo Culture Wars Around the World: How Countries Perceive Divisions (Guerras culturais ao redor do mundo: como países percebem divisões, em tradução livre), realizado entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, revela que o brasileiro está bastante consciente que o tema gera polêmicas.

É o que aconteceu na família da médica Aline Gonzaga. A polarização política esquentou o clima entre parte do clã. “Alguns familiares são mais extremistas e não aceitam conversar. Houve muitas brigas e algumas pessoas saíram do grupo de mensagens. Para evitar conflitos, hoje tentamos não conversar sobre política.”

Mesmo diante dessa situação, Aline conta que enxerga a posição política divergente dos familiares com serenidade. “Esses parentes que brigaram são boas pessoas. Apenas têm uma interpretação diferente da realidade.”

A médica destaca ainda o papel das fake news nas discussões. “Sem dúvidas, as notícias falsas que circulam na internet deixam os ânimos mais acirrados, pois são sempre muito polêmicas.”

Defesa de valores

Mas por que opiniões diferentes podem acabar gerando tantas discussões e até rompimento de relações em vez de uma saudável troca de ideias?

A psicóloga e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Pollyana de Lucena Moreira explica que “na maioria dos debates políticos, as pessoas não estão preocupadas ou interessadas em compreender as perspectivas diferentes das suas. A preocupação maior se centra na necessidade de apresentar melhores argumentos, superando os argumentos do outro e, por fim, vencer o debate”.

Pollyana ressalta que uma das causas para tantos desentendimentos é a “tentativa de proteger valores e ideologias diante de uma possibilidade de ameaça, seja esta ameaça real ou simbólica”. A psicóloga esclarece que, para alguns indivíduos, “mostrar-se aberto a compreender o contexto do outro, e demonstrar empatia, pode ser uma situação compreendida como uma brecha para deslegitimação dos próprios valores e da própria identidade”.

Outra razão para os embates, analisa Pollyana, é que tendemos a impor aos outros o que acreditamos ser o melhor não só para nós, mas para a sociedade. “Acreditamos nos nossos valores e ideologias não apenas como válidos para orientar nossas ações em nível interpessoal, mas também em nível societal e político. Assim, almejamos que a sociedade seja construída com base nos valores que defendemos porque consideramos que eles são mais eficazes para promover uma harmonia social.”

Participação x polarização

A democracia brasileira é jovem. Foi restabelecida em 1988, com o fim da ditadura militar e a entrada em vigor da Constituição Federal. Apesar de recente, é robusta, já que a participação do povo na gestão pública conta com uma série de garantias. O voto secreto, universal e periódico é cláusula pétrea, não podendo ser excluído do texto constitucional. Já o pluralismo político foi consagrado como um dos fundamentos da República.

O cientista político e professor da Ufes Mauro Petersem Domingues explica que “com a redemocratização tivemos pouco a pouco a criação de instituições e políticas que promoveram um aumento da participação popular, mas também geraram respostas de grupos de elite no sentido de impedir o avanço dessa participação e a construção de novos direitos. O embate entre essas forças é o que vemos hoje como polarização”.

Conforme registro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil conta com 33 partidos políticos. No papel, o pluralismo político está garantido. Na prática, o Brasil ainda vive preso ao conflito histórico entre direita e esquerda que motiva os atritos nas relações pessoais.

Mauro destaca, porém, que a polarização tem um lado positivo, uma vez que “mostra que pelo menos parte do povo brasileiro não abdicou do direito de ter direitos e está disposto a enfrentar os grupos dominantes que ao longo de nossa história lhe negam esse direito”.

Origens da intolerância

Os desentendimentos causados pela intolerância política, observa Mauro Petersem, não são um fenômeno espontâneo. “No momento atual, a intolerância é uma forma de alimentar divisões no interior da sociedade brasileira. Muitas vezes apelando para medos e preconceitos construídos ao longo de séculos, a intolerância vem sendo estimulada por grupos de interesses políticos e econômicos”, esclarece.

Ainda segundo o cientista político, as redes sociais podem acabar funcionando como catalisadoras da intolerância política. “O debate político, que deveria se dar na cena pública e ser submetido ao contraditório, passou a se dar em espaços privados. Quando líderes políticos e, principalmente, governantes incorporam plateias cativas e, contando com recursos públicos e privados, praticam um tipo de comunicação distorcida para fanatizar apoiadores, aí temos um sério risco de crescimento da intolerância política”, explica.

Exercício do diálogo

A neurocientista Suellen Barone explica que há maneiras de tratar de política sem agressividade, mantendo assim o diálogo e a livre exposição de ideias. Uma das soluções é a comunicação não-violenta, que consiste em “comunicar-se de forma consciente e conseguir se conectar com as próprias necessidades e as necessidades da outra pessoa”, esclarece a especialista.

Suellen pontua que a comunicação não-violenta vai além da maneira de se expressar. “É uma forma diferente de ver o mundo. É um convite para nos conectarmos com nossa vulnerabilidade e com a vulnerabilidade do outro. Temos que ver além das ideias de cada um. É preciso olhar para os sentimentos e motivações. Isso gera conexão e fomenta a tolerância.”

A neurocientista destaca que o problema não é o choque de opiniões, mas sim a falta de inteligência emocional para lidar com pontos de vista diferentes. “A questão não é o conflito e nem a raiva que desperta nas pessoas. A raiva é natural. O problema está na falta de habilidade emocional para lidar com as fortes emoções que surgem quando ouvimos opiniões que discordamos. É não saber agir diante da emoção”, observa.

O conflito nem sempre é negativo, considera Suellen. “É preciso desmistificar o conflito. Nem sempre ele é ruim. Muita gente acha que o conflito tem que ser evitado a todo custo. É impossível não haver conflitos. Eles surgem das divergências de ideias, de vontades e de estratégias distintas para atender – às vezes – as mesmas necessidades”.

Suellen aponta que a empatia é fundamental para lidar com as discordâncias de maneira saudável, mas que a autoconsciência é pré-requisito para que a capacidade de compreender emocionalmente o outro floresça. “A empatia é impossível para quem não tem autoconsciência. Só é possível se colocar no lugar do outro se sabemos quem somos. O fato de a pessoa discordar de você não tem nada a ver com você. Tem única e exclusivamente a ver com ela”, elucida.

A neurocientista orienta que para o diálogo ser saudável é preciso entrar na conversa com o coração aberto. “Entre na conversa para perder. Perder suas verdades absolutas, para abrir mão do que você tem para receber o que o outro tem para te trazer. Isso não quer dizer concordar ou abraçar as ideias do outro.”

A psicóloga Pollyana de Lucena concorda. “Lidar com pessoas intolerantes requer, sobretudo, muita disposição e muita abertura ao diálogo. Talvez, uma das principais formas de lidar com pessoas intolerantes seja a motivação para sair da própria bolha e compreender os argumentos que estruturam crenças e valores desse outro percebido como intolerante. Entender como as pessoas pensam e o que elas defendem é uma forma de poder conversar sobre como valores específicos podem ou não ser úteis para promover a justiça e a igualdade social.”

Dia contra a intolerância política

O Espírito Santo ganhou no calendário uma data de combate à intolerância política: o dia 6 de setembro. A data foi criada pela Lei 11.239/2021, a partir de projeto de autoria do deputado Capitão Assumção (Patri).

Segundo o parlamentar, a motivação para criar a data é o combate ao preconceito e a busca por uma sociedade mais livre. “Constantemente são veiculadas notícias relatando atos violentos motivados por extremismos. Vivemos momentos em que defender um ponto de vista pode causar alguns transtornos, pois as pessoas tendem a não aceitar opiniões diferentes do que acreditam ser a verdade absoluta.”

Assumção destaca ainda os números de agressões políticas em redes sociais nas eleições presidenciais de 2018. “Nas últimas eleições os comentários sobre agressões por motivação política geraram 2,7 milhões de postagens em redes sociais durante o segundo turno, contra 1,1 milhão nos 30 dias anteriores ao pleito, de acordo com estudo realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).”