O Teatro Municipal de São Paulo sediou, há exatos cem anos, a Semana de Arte Moderna -evento com manifestações artísticas que propunha uma nova visão da arte brasileira e que acabou se tornando o maior marco artístico nacional.

A ideia do movimento era romper o conservadorismo do cenário cultural da época fortemente calcado na imitação da arte europeia. Assim, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, no saguão do teatro, cerca de cem obras de pintura e escultura foram expostas para visitação e em três noites ocorreram festivais de arte.

Entre os participantes da famosa Semana, três deles viriam a se tornar deputados da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo alguns anos depois: Menotti del Picchia, Plínio Salgado e Cândido Motta Filho. Como parte das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, a Rede Alesp destaca a participação de deputados estaduais paulistas no movimento.

Os três deputados participaram da segunda noite de festivais, no dia 15 de fevereiro, dedicada à literatura e poesia. O primeiro palestrante da noite foi o poeta, jornalista e advogado Menotti del Picchia, um dos articuladores da Semana de Arte Moderna. Cândido Motta Filho e Plínio Salgado também foram modernistas daquela noite.

Na época da Semana de Arte Moderna, os três trabalhavam no jornal Correio Paulistano, que virou uma espécie de celeiro cultural daqueles tempos. Lá foi um dos lugares em que muitos dos planos para o movimento foram discutidos, bem como um dos desdobramentos da Semana: o Movimento Verde-Amarelo.

Menotti del Picchia e Plínio Salgado

Menotti del Picchia foi deputado estadual entre os anos 1926 e 1930, quando a Assembleia Legislativa funcionava num antigo prédio na atual praça João Mendes. Picchia pertencia ao Partido Republicano Paulista e, na Alesp, participou das comissões de Redação; Instrução Pública; e Fazenda e Contas.

O poeta, que se bacharelou em Direito pela Faculdade da USP (Universidade de São Paulo), no Largo São Francisco, também participou da Revolução de 1932, auxiliando o governador Pedro de Toledo. Sobre o conflito, escreveu um livro chamado “A revolução paulista” – através de um testemunho do gabinete do governo. O livro, assim como outros sobre a temática, está disponível para consulta e empréstimo na Biblioteca da Assembleia Legislativa.

Entre diversos prêmios que ganhou, Menotti recebeu o Prêmio Jabuti, um dos principais do país. É também um dos deputados estaduais que entrou para a Academia Brasileira de Letras. O poeta ainda se elegeu deputado federal por São Paulo em três legislaturas.

Plínio Salgado foi eleito um pouco depois de Picchia, em 1928, quando os dois participaram de debates em defesa dos ideais modernistas na Alesp. Assim como Picchia, Salgado fez parte da Comissão de Instrução Pública. Plínio Salgado ficou conhecido por liderar a Ação Integralista Brasileira, movimento de extrema-direita da década de 30.

O integralista apresentou, na Semana de Arte Moderna, o texto denominado Arte brasileira. Salgado também publicou o poema O Eco, no periódico modernista Klaxon, em novembro de 1922.

Escreveu dezenas de livros que vão desde romances a literatura infantil, passando por temáticas políticas, religiosas e filosóficas.

Os dois deputados perderam seus mandatos em virtude da Revolução de 1930, que fechou todos os legislativos do país.

Movimento Verde-Amarelo

A Semana de Arte Moderna criticava a imitação da arte europeia e propunha uma arte genuinamente brasileira. Duas vertentes surgiram, oriundas da Semana de Arte Moderna. A primeira, criada pelo escritor Oswald de Andrade, defendia que as tendências estrangeiras poderiam ser benéficas, desde que fossem reestruturadas de acordo com questões existentes na nossa cultura. Era o movimento antropofágico Manifesto Pau-Brasil.

Em contraposição, veio o grupo do Movimento Verde-Amarelo, que defendia a valorização de elementos oriundos totalmente da realidade nacional. O Movimento Verde-Amarelo foi fundado pelos dois deputados: Menotti del Picchia e Plínio Salgado, além do jornalista Cassiano Ricardo. Em 1927, o movimento incluiu a anta e o índio tupi como símbolos da nacionalidade, e passou a se chamar Grupo da Anta.

Cândido Motta Filho

Outro deputado estadual que participou da Semana de Arte Moderna e do Movimento Verde-Amarelo foi o jornalista e advogado Cândido Motta Filho, que também foi um dos fundadores da revista modernista Klaxon. Após divergências entre os integrantes do Movimento Verde-Amarelo, Menotti del Picchia e Cândido Motta Filho fundaram, juntamente com Cassiano Ricardo, o Grupo da Bandeira, em 1928, que se opunha a ideologias consideradas exóticas por eles.

Assim como Menotti del Picchia, Cândido Motta Júnior participou da Revolução Constitucionalista, ao lado do governador Pedro de Toledo. Motta ingressou na política anos depois de seus colegas.

Picchia e Salgado perderam os mandatos com a Revolução de 1930, que fechou a Assembleia Legislativa até 1935. Na reabertura, os deputados estaduais eleitos elaboraram nova Constituição estadual. Entre os constituintes, representando o Partido Constitucionalista, estava Cândido Motta Filho. Depois de promulgada a nova Constituição, iniciou-se a legislatura ordinária, na qual Motta integrou as comissões de Constituição e Justiça e de Estatística. O mandato não durou muito, pois, em 1937, os legislativos foram novamente fechados, dessa vez pelo Estado Novo.

Cândido Motta Filho foi docente da Faculdade do Largo São Francisco, ministro do Supremo Tribunal Federal e, em 1960, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Mais um

Os três deputados mencionados trabalhavam, em 1922, no jornal Correio Paulistano. Outro colega de jornal era Alfredo Ellis Jr. que, apesar de não ter participado da Semana de Arte Moderna, integrou posteriormente o Movimento Verde-Amarelo, juntamente com os três jornalistas e, assim como eles, viria a se tornar deputado estadual.

Alfredo Ellis Jr. foi deputado entre 1928 e 1930, juntamente com Menotti del Picchia e Plínio Salgado e entre 1935 e 1937, juntamente com Cândido Motta Filho. Ellis também participou da Revolução de 1932, chegando a ser baleado durante o conflito.

O parlamentar, que se formou em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, foi também promotor público e historiador, além de escritor e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

Deputados patrocinadores

Além dos deputados artistas participantes da Semana de Arte Moderna, outros dois deputados paulistas fizeram parte da comissão patrocinadora do evento: Alfredo Pujol e Antônio Prado Júnior. O grupo ajudou a custear as despesas de artistas que vieram do Rio de Janeiro, além do aluguel do Teatro Municipal durante os dias de realização do evento.

O advogado, jornalista e crítico literário Alfredo Pujol foi deputado por sete legislaturas. Elegeu-se pela primeira vez em 1892, na segunda legislatura da República Velha, e se reelegeu ininterruptamente até 1903. Voltou à Assembleia em 1907, onde permaneceu até 1915, sempre pelo Partido Republicano Paulista. Na Assembleia, integrou as comissões de Instrução Pública, de Justiça, Constituição e Poderes, além da Comissão de Redação.

Formou-se advogado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e, assim como Menotti del Picchia e Cândido Motta Filho, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 1917 para a ABL, ocupou a cadeira 23, que havia pertencido a Machado de Assis.

Por fim, o engenheiro e empresário Antônio da Silva Prado Júnior, também financiador da Semana de Arte Moderna, foi deputado estadual por duas legislaturas, entre os anos de 1922 e 1927, pelo Partido Republicano Paulista. Prado Júnior, que havia se formado em engenharia pela Universidade de São Paulo, exerceu o cargo de prefeito do Distrito Federal – Rio de Janeiro, à época – durante o governo de Washington Luís. Além de ajudar financeiramente a Semana de Arte Moderna, Antônio da Silva Prado Júnior era entusiasta de conquistas brasileiras. Em 1907, voou no balão Lutéce, pilotado por Alberto Santos Dumont. No ano seguinte, fez a primeira travessia automobilística de São Paulo. A viagem entre a capital paulista e a cidade de Santos durou 37 horas.

Outro integrante da comissão foi José Carlos Macedo Soares, que não foi deputado, mas é uma presença marcante na Alesp. Macedo foi embaixador e parte de sua biblioteca foi adquirida pela Alesp em 1965. São centenas de livros preservados no Acervo Histórico da instituição

Fonte:ALESP
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