235071Nos últimos anos, o uso excessivo da internet por crianças e adolescentes lançou um alerta aos pais, educadores e também aos profissionais da saúde sobre os riscos a ele associados. Se por um lado o mundo virtual é uma ferramenta de aprendizagem e socialização para os jovens, de outro, é espaço que os deixa mais vulneráveis a conteúdos inapropriados ou, ainda, reféns da criminalidade on-line. Além de outros perigos que envolvem esse universo virtual, como redes de pedofilia e cyberbullying, os jogos que induzem à autoagressão e ao suicídio estão entre os conteúdos mais preocupantes.

Com o intuito de alertar a sociedade para os riscos desses desafios, a Assembleia Legislativa aprovou a Lei 10.949/2019, que estabelece o Programa de Prevenção e Combate a Jogos que Induzem Crianças e Adolescentes à Automutilação e ao Suicídio. A lei foi sancionada e publicada no Diário Oficial do Estado de Mato Grosso no início deste mês.

De autoria do deputado Oscar Bezerra (PV), a lei prevê que as ações do programa serão desenvolvidas pela Secretaria de Estado de Educação, em conjunto com as Secretarias de Estado de Segurança Pública e de Saúde, para alertar e promover ações de conscientização e de atendimento.

“Além de desenvolver campanhas de conscientização e orientações sobre medidas preventivas, a iniciativa também tem como objetivo capacitar profissionais, bem como definir o encaminhamento para atendimento personalizado daqueles que já aderiram a jogos”, destaca o parlamentar. A prioridade, segundo ele, serão as escolas, onde deverão ocorrer palestras e atividades para alunos, pais e equipes de ensino.

Para a coordenadora da Regional Centro Norte do Centro de Valorização da Vida (CVV), Isaura Titon, a ação dentro das escolas é fundamental para ampliar os ambientes de discussões e orientações sobre questões que envolvem a saúde mental nessa fase da vida.

“O programa representa a abertura de um espaço para discutir o sofrimento psíquico dos jovens de forma mais atenta, principalmente o suicídio, que é um possível desdobramento dessa angústia e, até pouco tempo, era tratado como tabu”, avalia.

Segundo Isaura, adultos têm olhado com mais atenção para os sofrimentos dos jovens, mas eles precisam de mais espaço para se expressar, para serem compreendidos e entender o que está acontecendo consigo. “Contar com profissionais do âmbito escolar capacitados para ajudar a identificar uma situação de risco e aptos para oferecer ajuda faz muita diferença”, diz a coordenadora.

“Os jogos, muitas vezes, são ferramentas que agravam uma situação de vulnerabilidade emocional já instalada”, avalia o psicólogo Raul Bruno Tibaldi. Isso porque, segundo ele, o desafio propõe a superação de fases, cada vez mais arriscadas, e o cumprimento dessas metas pode significar, para este jovem, o fortalecimento da autoimagem possivelmente comprometida e agravada por uma situação de bullying escolar ou algum outro evento de violência ou frustração.

Alguns sinais, segundo ele, podem indicar uma possível fragilidade da criança ou adolescente para as sugestões de autoviolência contidas nos jogos virtuais, como desinteresse pela escola, queda no rendimento escolar, agressividade injustificada, isolamento e a perda do prazer por hábitos que lhe agradavam. “Percebendo isso, facilita a busca por ajuda especializada, se necessário uma intervenção”, avalia.

O fortalecimento dos vínculos familiares, de acordo com o psicólogo, é o fator preponderante tanto para perceber as mudanças de comportamento advindas de angústias ou medos quanto para conseguir estabelecer um canal de confiança para dialogar quando existe um processo de sofrimento. “É por meio dos diálogos familiares saudáveis, que buscam ouvir e compreender sem julgar ou minimizar o sofrimento, que as crianças e jovens vão se sentir fortalecidos para dividir as vivências e provações que estão passando. Não é um trabalho fácil, essa construção, mas é o que mais dá resultado”, enfatiza.

Sem estabelecer restrições ou bloqueios aos acessos dos filhos adolescentes, a servidora pública Rafaela Freitas Siqueira afirma que o diálogo é a sua principal forma de acompanhar e cuidar das interações virtuais do João Victor, de 16 anos, e do Kahlil, de 14 anos.

“Eles têm amplo acesso, até porque se foi o tempo em que o conteúdo inapropriado era buscado, hoje ele vem até as pessoas, pelos grupos de conversa ou pelas redes sociais, então não adianta proibir”, afirma. A estratégia de Rafaela é buscar participar do universo dos filhos. “Quando eram pequenos, me inteirava dos desenhos para poder conversar, agora tenho que acompanhar os assuntos da adolescência e o desafio é maior porque as perguntas vão ficando difíceis de responder, mas nunca deixo sem resposta”.

A sugestão dela para pais e filhos é sobre a importância de acreditarem nessa relação de confiança como a principal alternativa para buscar soluções e ajudas em caso de dificuldades. “Sempre falo que um castigo meu vai ser muito mais brando do que as consequências ruins que podem surgir de uma situação complicada, com a qual podem ter se envolvido. Que procurar ajuda de um adulto de confiança pode fazer as coisas serem resolvidas de uma maneira melhor”, destaca Rafaela.

Dados – Entre os anos de 2003 e 2013, o país registrou aumento de 10% nos casos de suicídio entre crianças e adolescentes dos nove aos 19 anos. Desde a década de 1980 até 2012, o acumulado é ainda mais expressivo, chegando a 62,5% de suicídios entre adolescentes de 15 a 19 anos. Os dados fazem parte dos estudos do Mapa da Violência, publicados em 2014 e 2015, e que usam informações divulgadas pelo Ministério da Saúde. Os estudos apontam ainda que adolescentes que ficam mais de cinco horas em redes sociais e internet têm possibilidade dez vezes maior de morte por suicídio. (Fonte: Ministério da Saúde e Associação Brasileira de Psiquiatria –ABP).

FONTE: ALEMT
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