A pandemia de Covid-19 evidenciou a necessidade de políticas públicas para combater a desigualdade de gênero, a violência contra a mulher e a crise econômica que ameaça a autonomia feminina, especialmente nas camadas mais vulneráveis da população.

Este foi o consenso entre as participantes do painel “Pandemia: consequências e desafios intensificados a enfrentar”, que encerrou o Ciclo de Debates Sempre Vivas – Mulheres e Política: Por representatividade, justiça e respeito, na tarde desta quarta-feira (9/3/22), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Assista ao vídeo completo da reunião.

Para Soraia Mendes, doutora em Direito, Estado e Constituição pela UnB, um dos principais desafios do pós-pandemia é o combate à violência contra a mulher. Ela lembrou que o problema foi agravado pela necessidade de isolamento social para evitar a contaminação pelo coronavírus e afeta principalmente as mulheres mais pobres, negras, quilombolas e indígenas.

“Não falamos da quantidade de mortes provocadas pela política de exclusão social”, afirmou. Ela ainda criticou a elaboração do Plano Nacional de Enfrentamento do Feminicídio sem participação social e defendeu a realização de pesquisas sobre a violência contra a mulher, conforme determina a Lei Maria da Penha.

Denise Pimenta, doutora em Ciência da Saúde pela Fiocruz Minas, apresentou diversos estudos que comprovam que a pandemia afetou desproporcionalmente as mulheres, conforme suas características étnico-raciais e sua classe social. Ela reforçou que surgiram novas vulnerabilidades e outras que já existiam foram aprofundadas, mas as questões de gênero têm sido ignoradas pelo poder público, no seu entendimento.

Já a professora do curso de Psicologia da UFMG, Lisandra Espíndula Moreira, fez uma análise da condição feminina a partir dos conceitos de casa e guerra (entendido como metáfora da pandemia). Ela lembrou que a noção de lar não necessariamente significa proteção. A necessidade de isolamento social evidenciou várias vulnerabilidades das mulheres, expostas à violência doméstica e até mesmo ao trabalho em condição análoga à escravidão.

Por outro lado, o cenário pandêmico, comparável a uma guerra por exigir soluções urgentes, levou a situações extremas, que se converteram em maiores pressões sobre as mulheres, na sua avaliação. Para mudar essa realidade, ela defendeu a articulação entre universidades e movimentos sociais para pensar “ações políticas atravessadas por questões de gênero”.

Dia da mulher é dia de luta

“Quando vamos conseguir vencer o romantismo do 8 de março?” A provocação foi feita pela quilombola Lucimar Martins, que questionou as comemorações em torno do Dia Internacional da Mulher. “Comemorar o quê? A morte de milhões de mulheres?”, ironizou.

Entre os desafios da pandemia a serem superados, ela citou a dificuldade na comercialização dos produtos da agricultura familiar. “Não houve incentivo do governo para o escoamento da nossa produção, e isso tem um impacto direto na mesa do povo: a alta de preços”, afirmou.

Apesar das dificuldades, Lucimar vê no pós-pandemia a possibilidade de transformação. “Espero que a gente saia da pandemia mais humanizado, com a capacidade de sentir a dor do outro”, finalizou.

Já a presidente estadual da União Brasileira de Mulheres, Bárbara Ravena, lembrou as principais dificuldades vivenciadas pelas mulheres no período pandêmico, como desemprego, acúmulo de tarefas domésticas, adoecimento mental e violência.

Ela cobrou a atuação do poder público para combater a violência doméstica e para garantir a reinserção das mulheres no mercado de trabalho. “É preciso que essas políticas voltadas para as mulheres funcionem de fato e não fiquem só no papel”, defendeu.

Mulheres precisam ocupar espaços de poder

A deputada Beatriz Cerqueira (PT), que conduziu o ciclo de debates, lembrou que a luta das mulheres compreende também a reafirmação de questões que já deveriam ter sido superadas. “Em tempos de negacionismo, voltamos a discutir coisas muito simples, como a vacinação. De repente, nos vimos na obrigação de defender algo óbvio”, disse.

Para combater a desigualdade de gênero, ela defendeu que os espaços de poder sejam ocupados pelas mulheres. “Só assim poderemos alterar essa realidade cruel, de morte e de desrespeito aos nossos direitos”, afirmou.

A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Ana Paula Siqueira (Rede), disse que a maior participação feminina na política é um desafio a ser superado, mas que poderia proporcionar melhorias para todas as mulheres.

Ela lembrou que o Ciclo de Debates Sempre Vivas terá ainda uma plenária presencial, com a participação de 77 mulheres, ainda sem data definida. “Representatividade importa, sim, e é o que queremos para o nosso futuro”, concluiu.

Fonte: ALEMG
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