alemgmusicaO relógio se aproxima das 20 horas e algumas pessoas começam a entrar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) batendo os pés no chão, na tentativa de secar um pouco as pernas. Chove do lado de fora, mas, na entrada do Teatro, a recepção tem o mesmo calor de sempre.

Antônio Carlos Magalhães repete seu ritual das segundas-feiras e aguarda todos para dar as boas-vindas. Frequentadores habituais já o conhecem e trocam o aperto de mãos por um abraço. É o caso do professor aposentado Demóstenes Silveira, de 76 anos. Em comum, ele e o gestor do Segunda Musical, mais conhecido como Toninho, têm o amor pela música clássica. E é por isso que se encontram ali semanalmente.

“A qualidade musical é enorme, os espetáculos são bem dirigidos e ainda têm a vantagem de acontecerem em um dia da semana em que quase não existem opções culturais na cidade”, elogia Demóstenes, que frequenta o espaço há cerca de oito anos. A idealizadora do Segunda Musical, Cláudia Bento, destaca ainda outra vantagem: é uma iniciativa que dá oportunidade para novos talentos.

Voltado para a apresentação de estudantes de música, selecionados em uma audição anual, o programa, que completa este mês 15 anos de criação, já se consolidou no cenário cultural de Belo Horizonte.

Ele abre espaço para músicos como Jennifer Pereira, que, aos 16 anos de idade, foi classificada em 2º lugar na seleção deste ano. “Ainda fico muito nervosa nas apresentações. É importante ter esses espaços para ganhar experiência no palco”, elogia.

Amadurecimento – Também pianista, Rafael Ruiz, 20 anos, ficou em 1º lugar na audição de 2016 e concorda com a colega. “A cada ano, dá para notar o nosso amadurecimento como músico”, diz ele, 1º colocado também na seleção de 2015.

Rafael destaca outro ponto importante: a divulgação feita pela TV Assembleia. “(A apresentação) chega ao Estado inteiro pela televisão. Sou de Manhuaçu (Zona da Mata) e muitos na minha cidade que nunca tinham ouvido música erudita tiveram essa oportunidade”, conta, ressaltando a influência desse trabalho na formação de novos públicos.

O aposentado Elson Pereira, 58 anos, que é assíduo nos concertos, relata que sempre gostou de música clássica e erudita, mas afirma que a presença semanal nos espetáculos melhorou sua percepção musical.

A hora dos mestres

A programação anual é dividida, ainda, com músicos consagrados. Cláudia Bento explica que cerca de 30% das datas do ano são direcionadas para o “convite do mestre”, no qual pessoas consagradas são chamadas a se apresentarem. “Até para os estudantes isso é importante: eles precisam ver como se portam no palco aqueles que já são reconhecidos”, afirma.

Presença constante entre esses “mestres” é a cantora Andrea Pelicioni. Ela participou pela primeira vez em 2008, quando ainda era estudante, e, hoje, professora da Escola de Música da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), divulga a iniciativa para seus alunos e os incentiva a participarem. “A carreira do bacharelado teria que ser direcionada a solistas, mas são poucos os espaços para seguir esse caminho em Minas Gerais. É por isso que é tão importante”, elogia.

A Uemg foi a primeira parceira do Segunda Musical e Cláudia Bento faz questão de salientar a importância desse apoio inicial. A instituição era representada, na época, pelo então coordenador de Extensão, professor Mauro Mascarenhas.

Outro nome que ela destaca é o do ex-diretor geral da Imprensa Oficial, Francisco Pedalino Costa. Em sua gestão foi feito o empréstimo do piano que até hoje acompanha os músicos. Inicialmente, eles usavam um piano sem cauda, que não produz som com a mesma qualidade, até que Pedalino Costa se sensibilizou e emprestou o instrumento, que acabou sendo doado.A qualidade do piano, porém, ainda precisa ser melhorada e esse é um dos principais obstáculos a serem vencidos, como ressalta Eduardo Hazan. Pianista desde os 13 anos de idade, ele é hoje, aos 79, outro dos “mestres” que sempre marcam presença nos shows. “O público é receptivo, a organização é ótima, os funcionários são gentis. O piano é a única coisa que deixa a desejar”, destaca.

Superação – Cláudia Bento reconhece o problema, mas ressalta que obstáculos fazem parte da história dos concertos e tendem a ser superados. Foi assim desde o início, quando o Teatro da Assembleia só podia ser usado para espetáculos culturais entre quinta-feira e domingo.

“Essa foi só a primeira das dificuldades vencidas pelo Segunda Musical”, conta. A inspiração para o trabalho veio, segundo ela, do mestre espiritual armênio George Gurdjieff. “Ele utilizava a música para acessar estados de consciência mais elevados”, explica Bento, que era adepta da sua filosofia quando fundou o programa de música clássica e erudita.

Com o passar dos anos, o trabalho foi sendo reconhecido e fortalecido por meio de muitas outras parcerias. Hoje, as Escolas de Música da Uemg, da Fundação de Educação Artística e das Universidades Federais de Minas Gerais, de Ouro Preto e de São João del-Rei são grandes apoiadores.

Recentemente, parceria com o Instituto Cervantes tem possibilitado que artistas internacionais, especialmente espanhóis, ocupem também esse palco.

Exposição em homenagem aos 15 anos de história

Para celebrar os 15 anos do Segunda Musical, o Espaço Político-Cultural Gustavo Capanema, no andar térreo do Palácio da Inconfidência (Rua Rodrigues Caldas, 30, Santo Agostinho – Belo Horizonte), recebe uma exposição aberta ao público. As visitas podem ser feitas entre 24 de outubro e 17 de novembro.

Assembleia Cultural – O Segunda Musical integra o Assembleia Cultural, que agrupa as diversas iniciativas da ALMG relacionadas à cultura, como exposições de artes plásticas e de fotografia, mostras de artesanato, espetáculos de dança, peças de teatro e apresentações de música erudita e popular.

Fonte: ALEMG

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