Por Gustavo Fernandes, oncologista e diretor da Dasa Oncologia

Em 2625 a.C., Imhotep, grande intelectual da época, descreveu o câncer como uma doença grave e sem tratamento. Durante milênios — isso mesmo — a doença foi considerada como uma sentença. Falar sobre câncer não é um tabu de hoje, é milenar e, por seu tempo, essa forma de se referir a ele fez jus à mortalidade que gerava. O tempo passou e, felizmente, o mundo foi iluminado pelo conhecimento, pela ciência. A vida foi estendida, mais que dobrou em média, as doenças infecciosas e cardiovasculares foram compreendidas e dominadas. O câncer precisava ser enfrentado.

Nas décadas de 1960 e 1970, o mundo viu o início da “guerra ao câncer”, como declarou o presidente Nixon em 1971, quando destinou esforços e verbas federais para derrotar a doença. Nessa direção, esforços da sociedade, dos cientistas, dos governos e, principalmente, dos pacientes, resultaram em uma redução bastante significativa da mortalidade por câncer, que cai, aproximadamente 1% anualmente há mais de 30 anos.

A tecnologia transformou os tratamentos tradicionais, que passaram a ser menos penosos e mais eficazes, novas terapias foram incorporadas e são lindas na essência, como a imunoterapia e a manipulação de linfócitos contra o câncer conhecida como CAR-T. Até a pandemia nos ajudou a acelerar, dando muita velocidade ao desenvolvimento de tecnologia de RNA recombinante e destravando o uso de telemedicina e da navegação.

Atualmente, os instrumentos para manter o câncer longe estão em nossas mãos, dependem muito de inteligência e integração do seu uso. As ferramentas para diagnóstico precoce existem, porém precisam ser mais utilizadas. Exames com resultados alterados precisam ser ativamente seguidos. Sintomas iniciais não podem ser negligenciados. O bom cuidado passa por prevenção, com medidas clássicas de promoção à saúde, como boa alimentação e atividade física, mas também passa pelo uso inteligente de métodos diagnósticos e coordenação ágil das necessidades terapêuticas, algo que só compreende quem vive um mundo onde o menu de terapias é cada vez mais extenso, complexo e personalizado.

Cirurgia aberta, robótica, laparoscópica, radiocirurgia, radioterapia, quimioterapia, biópsia, painel genético, oncologista, terapia alvo, imunoterapia, hormonioterapia, fisioterapia, endoscopia… São dezenas as modalidades de métodos diagnósticos, especialistas e terapias aos quais os pacientes podem ser direcionados para ter as necessidades atendidas. O caminhar de uma vida humana por essa estrada não é banal e, principalmente, não pode ser displicente ou descoordenado. A complexidade e o número de opções nos fazem precisar de mapas, de controladores de voos, de wazes para obter os melhores resultados, os menores percursos.

Em função da navegação do paciente, a oncologia tem afinidade total com redes integradas de saúde que podem cuidar do indivíduo de maneira fluida e conectada. Afinal, a oncologia representa a necessidade de integração e coordenação no cuidado em todas as etapas da atenção: primária, secundária e de alta complexidade, além do acompanhamento pós-tratamento. É verdade, com tecnologia e integração, conseguimos reduzir de 60 para 15 dias o tempo entre o diagnóstico do câncer e o início do tratamento.

Mais do que cuidar da doença, devemos promover a saúde. Pesquisas da American Cancer Society de 2022 sustentam que uma proporção substancial de cânceres poderia ser evitada pelo não uso do tabaco e outros comportamentos pouco saudáveis, como excesso de peso corporal, consumo excessivo de álcool, má nutrição e inatividade física. Excluindo câncer de pele não melanoma, pelo menos 42% dos cânceres recém-diagnosticados nos EUA — cerca de 805.600 casos em 2022.

Além disso, cânceres causados por agentes infecciosos, como o papilomavírus humano (HPV) e os vírus das hepatites B (HBV) e C (HCV) poderiam ser prevenidos por meio da vacinação. Os mais de 180 mil casos de câncer de pele registrados pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) em 2022 no Brasil poderiam ser prevenidos por proteger a pele da exposição excessiva ao sol e não usando aparelhos de bronzeamento artificial.

Uma parte da solução do problema está na prevenção. Mudanças no estilo de vida são importantes para evitar doenças e é um compromisso individual grande e intransferível, mas a educação tem seu papel. Avanços como a inteligência artificial e algoritmos no rastreamento abrem um horizonte promissor na luta contra o câncer, mas não são o bastante para evitar a doença em todos. Tecnologia e ações de prevenção caminham lado a lado para termos uma população mais saudável. Essa é uma responsabilidade médica, dos sistemas de saúde e, também, de cada um de nós.

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