ALEPA: Rádio Alepa entrevista especialista em Saúde Mental

Diante do acesso excessivo às telas, jovens, adolescentes, adultos e até crianças vêm desenvolvendo sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima e distúrbios do sono, o que acarreta prejuízos à vida, dificuldade de sociabilização e isolamento. A hiperconexão — estado de permanência constante na internet e em dispositivos digitais — tem intensificado a sensação de desesperança em muitas pessoas. O debate sobre saúde mental precisa encarar a influência direta do ambiente virtual no esgotamento psíquico, além de combater o estigma em torno do tratamento e indicar caminhos práticos para a busca de ajuda, desde a unidade básica de saúde até o acompanhamento especializado.

A médica iniciou a conversa destacando que abordar o tema é necessário não apenas em setembro, mas o ano inteiro. “Falar sobre o Setembro Amarelo e a saúde mental é preciso, assim como quebrar paradigmas, principalmente no que diz respeito à prevenção do suicídio”, declarou. Em seguida, ressaltou que o uso abusivo das telas pode gerar transtornos psíquicos: “O transtorno já tem nome: nomofobia, o medo de ficar sem o celular. Longe do aparelho, o indivíduo fica ansioso, com a sensação de estar perdendo informações importantes ou excessivamente entediado”. A especialista complementou: “A hiperconectividade faz com que as pessoas acreditem em tudo o que as redes sociais apresentam, e não é assim. Por trás de quem posta fotos sempre feliz, há contratempos; a vida de ninguém pode ser medida pela do outro. A partir do momento em que você deseja o mesmo padrão de produtividade do próximo, isso causará sofrimento por não atingir tal ideal, seja na estética ou no perfeccionismo”.

Ana Caroline relembrou o lema do Setembro Amarelo deste ano, “Escutar é estar presente”, que reforça como uma escuta acolhedora pode representar o primeiro passo para quem está em sofrimento emocional. “As pessoas nunca estiveram tão conectadas, mas nunca fomos tão mal ouvidos. O ser humano não percebe mais o outro devido às notificações que chegam ao celular ou por causa de postagens padronizadas”, relatou.

Ela também comentou a diferença entre a hiperconectividade e o adoecimento mental. “Há quem precise estar conectado por exigência do trabalho. Essas pessoas chegam a olhar e-mails, WhatsApp e redes sociais, mas é fundamental estabelecer limites. Os indivíduos que não adoecem são justamente os que conseguem fazer pausas”.

Como orientação profissional, a médica sugere desativar as notificações do aparelho nos fins de semana ou programar verificações espaçadas, caso a demanda profissional permita. “A hiperconectividade prende o cérebro em estado de alerta permanente, gerando sofrimento e adoecimento. Vale lembrar que o termo ‘Burnout Digital’ ainda não está catalogado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) nem na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da OMS, embora já seja objeto de diversos estudos”, pontuou.

A médica chama a atenção para os sinais sutis de comportamento em casos de sofrimento extremo. “Noventa por cento dos cidadãos que chegam a tirar a própria vida possuem algum transtorno psiquiátrico não tratado ou tratado de maneira inadequada, muitas vezes por medo de estigma. Quando a pessoa começa a se isolar, demonstrar tristeza profunda e desamparo, é o momento de a rede de apoio agir. A comunicação não verbal é essencial para perceber mudanças em familiares e amigos”, analisou.

Por fim, Ana Caroline Viana abordou a resistência em buscar ajuda psiquiátrica. “Ainda há um preconceito muito grande. Muitas pacientes dizem que, ao sugerirem atendimento para os maridos, preferem apresentá-lo como consulta com a médica da família para evitar reações negativas. É urgente quebrar esse tabu: o suicídio é um problema de saúde pública”, defendeu. Ela concluiu: “A saúde mental não se restringe a psicólogos e psiquiatras. A sociedade como um todo deve se engajar. A busca por auxílio especializado começa no momento em que criamos um vínculo genuíno com o outro”.

Fonte: ALEPA

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