Por: Jéssica Eufrásio

Jornalista do Correio Braziliense

A possibilidade de anônimos compartilharem vivências, experiências e opiniões se amplia e se consolida por meio das redes digitais, nas quais comportamentos e ideias ganham força para influenciar milhões de indivíduos. Por essa perspectiva, orbitam noções de imagem, estética e padrões. Ao mesmo tempo em que há quem dite tendências — às vezes, privilegiados pelo encaixe em arquétipos pré-estabelecidos e, normalmente, eurocêntricos —, há quem faça reverberar o discurso contra um status quo imagético social.

Esse segundo grupo consegue promover reflexões sobre o papel individual para a manutenção de alguns modelos. A força disso tem colocado em xeque serviços, empresas, órgãos ou instituições, que se veem, frequentemente, obrigados a reposicionar marcas e modificar as estruturas sobre as quais se erigem. Outros, entretanto, mantêm práticas cada vez mais discutíveis, em atendimento a uma demanda que prevalece e em razão de retornos financeiros colossais.

Recentemente, duas crianças brasileiras, um menino e uma menina, venceram concursos de beleza no Peru. Em geral, nos eventos para escolha de “misses” e “misters”, a hierarquização de pessoas ganha um ar mais humano, na teoria, disfarçado sob a análise de qualidades além do físico e o incentivo à filantropia.

Apenas o fato de existirem concursos de beleza para crianças chama a atenção. No entanto, junto a isso, uma reflexão vem naturalmente: como o conceito do que é ou não belo se impõe de maneira tão precoce. O valor físico é suficiente para qualificar a beleza de alguém? A vida em sociedade requer adaptações, mas fazer com que o encaixe em padrões se torne uma obrigação desde tão tenra idade tem efeitos cruéis.

Apesar de os resultados das pesquisas não terem, necessariamente, relação com questões de autoestima ou da busca por uma imagem ideal, não há como esquecer que o Brasil é líder no ranking mundial em quantidade de cirurgias plásticas. Além disso, a Organização Mundial da Saúde observa aumento do número de casos de depressão e ansiedade no país e no restante do mundo — diagnósticos com origens diversas, mas que também se desenvolvem em função de problemas com a autoimagem.

A construção do que se considera local e contemporaneamente belo tem ligação com questões históricas, sociais e culturais. Hoje, isso se sustenta no imaginário com o suporte midiático — incluindo as redes mencionadas anteriormente — e com o trabalho de empresas que lucram em cima de uma homogeneização de atributos. Beleza tem relação com o subjetivo. Não cabe estabelecer formas de adaptação aos cânones, mas, sim, desconstruí-los e discutir meios de libertar a sociedade de cobranças irresponsáveis pelo irreal.

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